15/12/2008

O melhor jogo que não vi.


 

– Mãe, o que espero do futebol é a poesia!


 

Repetia esta frase enquanto ouvia as recomendações de sempre:

– Cuidado com as brigas!

– Não é melhor ver pela TV?

Ver pela TV? Meu time há dezoito anos sem um título, tudo a nosso favor. Ganhamos o primeiro jogo, o time era melhor, jogávamos pelo empate, era o dia, e ela me dizendo com voz doce: Não é melhor ver pela TV?

Mãe é mãe, como já dizia o filósofo e assim tudo o que conseguia responder era: ” Mãe, o que espero do futebol é a poesia!”

Não lembrava de quem era a frase e nem sabia o que estava dizendo, mas era só o que meus nervos me permitiam falar.

Após ouvir com fingida atenção às 412 recomendações, saio de casa em direção ao estádio do Morumbi. Era o dia.

Antes, uma passada na casa de um amigo, juro, pensei em trocar seu nome, conceder-lhe o direito ao anonimato, mas mudei de idéia e o nome verdadeiro do sujeito é Marcelo Hazan.

Marcelo Hazan!

Treze letras, diria um antigo técnico e numerólogo do futebol brasileiro.

– Não professor! São doze, eis o problema, são só doze.

Marcelo é um sujeito tranqüilo e acreditem: quando fica nervoso aparenta estar ainda mais tranqüilo. Torcedor do Santos, companheiro de sofrimento em várias disputas, parceiro ideal para este tipo de jogo, aliás, não há tipo de jogo nenhum, esse jogo é pura e simplesmente o jogo. Além do mais, estávamos com sorte, pois na semana anterior acompanhamos no mesmo estádio, a vitória de nosso time no primeiro dos jogos finais.

Trânsito tranqüilo, tranqüilo até demais. Chegamos 90 minutos antes dos 90 minutos que seriam os 90 minutos mais importantes de nossas vidas e eu reclamava como se estivesse numa fila do INSS de 90 metros aos 90 anos: Não vamos conseguir estacionar, vamos ter que deixar o carro lá em Santa Cruz de La Sierra, lembrei de minha mãe e mais do que rápido pensei: “Deixe estar, o que espero do futebol é a poesia!”

– Calma, dizia suavemente Marcelo. Calma.

Como é que alguém pode estar calmo num dia como esse? Mas foi só me acalmar ou fingir que me acalmava que a vaga surgiu, vaga de estacionamento.

Em verdade, o estacionamento em questão é um barranco em frente ao estádio do Morumbi, mas em certas ocasiões, é melhor um barranco do que nada. Estacionamos, pagamento adiantado, dez reais e a garantia de que nosso carro ficaria seguro até a volta. Maravilha.

Ingressos.

– Marcelo, onde estão os ingressos?

– Estão aqui no meu bolso. Respondeu.

Por ser vizinho ao Pacaembu, Marcelo acabava quase sempre com a incumbência de conseguir os ingressos, o velho estádio municipal servia de bilheteria a jogos maiores no Morumbi. Por uma dessas razões “que a própria razão desconhece”, eles acabaram muito rápido.

Marcelo me telefona e diz:

–  Não tem mais ingresso!

Inconformado, me ponho a pensar como é que estes ingressos acabam, deixando a impressão de acabarem exatamente meia hora antes de se iniciarem as vendas.

Só nos resta a velha figura do cambista.

– Tem algum aí? Perguntei.

– Uns dois mil. Responde Marcelo.

Bom é o jeito, afinal de contas, era o jogo.

Foi assim que o par de ingressos foi parar no bolso do Marcelo, não esqueçam, Marcelo Hazan, doze letras.

“Engoli” uma cerveja quente vendida por 2 reais por um ambulante em mais ou menos doze segundos. Desta vez o calmo Marcelo “Doze Letras” estava nervoso de verdade: “Vamos, a fila está grande demais!” Resmungava.

Fomos. A fila era grande, mas a polícia trabalhava rápido e a velocidade era maior que a habitual.

É hoje, pensava.

Nem dez minutos de fila e já estamos passando pela revista.

– Ingresso na mão – berra o gentil policial.

Marcelo me deu o ingresso, passo pela revista e com uma empolgação só comparável à da primeira vez, num estádio é claro, corro em direção à “catraca eletrônica”. Tento enfiar o ingresso na fresta destinada a isso, não entra.

Ainda bem que rapidamente percebi o problema:

–  “Senhor, esta catraca está com defeito, já tentando a outra, e esta aqui também” concluo brilhantemente.

Procuro Marcelo, está desolado

–  Viu moço, a dele também está quebrada, disse.

– Senhor, seu ingresso é falso, diz o policial.

Os dois segundos que levei para esboçar qualquer reação pareceram suficientes para escrever uma dissertação de mestrado.

– Falso?

– Deve estar havendo um mal entendido. Vim de Ribeirão Preto pra ver esse jogo, comprei o ingresso lá e o senhor vem com essa história de que meu ingresso é falso – crente que a mentira fosse me ajudar.

– Pago meus impostos e esse ingresso não pode ser falso!

– Dirija-se ao setor de reclamações ao lado senhor. Disse calmamente o policial.

O “setor de reclamações” era um tanto improvisado. A fila para reclamar era quase que do mesmo tamanho que a fila da entrada. A saída foi me livrar do resto de educação que tinha e “furar” a fila.

Sucesso! Começo a argumentar com um capitão da Polícia e pensava “Ele não resistirá à minha argumentação que era ,mais ou menos, a seguinte:

– Oficial, esse ingresso não é falso e se por uma dessas tragédias da humanidade, for, a vítima sou eu. Então, na condição de vítima tenho que entrar.

– Entendo sua situação senhor e tendo a concordar. Com o senhor e com mais umas duas mil pessoas que tiveram a mesma falta de sorte.

– Então podemos entrar?

– Não!

– Que absurdo, então a polícia protege o trabalho dos cambistas, dizia já em desespero.

Valia tudo já que tudo parecia estar perdido, até o risco de uma prisão por desacato.

Pra minha surpresa o capitão responde calmamente

– Quem protege os cambistas são vocês que compram ingressos deles, além do mais, estou aqui preocupado com segurança, se duas mil pessoas entrarem onde não cabe mais nem pensamento e o estádio desabar a culpa será minha, nem do senhor, nem do cambista.

O jeito era me conformar, descendo cabisbaixo a rampa de acesso noto um princípio de tumulto, a torcida vai tentar forçar a entrada.

Entramos no meio da confusão sem sucesso e o pior, o olhar de reprovação do capitão era algo pior do que ser preso por desacato.

Plano B

“Doze Letras” e eu rumamos ao barranco, ainda faltavam 30 minutos para o jogo e íamos pegar o carro e procurar algum lugar para assistir à partida. Pensava comigo: “Isso é praga de mãe”.

Chegando lá… Os dois segundos que demorei a falar um palavrão dariam pra duas dissertações de mestrado. Do lado direito de nosso carro, outro carro. Do esquerdo, mais outro. À frente mais um do mesmo modelo, aliás, do que estava atrás, um carro chamado Prêmio, que belo Prêmio, aliás, dois Prêmios, um atrás outro na frente. Estávamos cercados!

“Doze Letras” quis gritar, mas em cima eu falei:

– Calma! Vamos achar uma TV.

Amigos, vocês já procuraram uma TV nos arredores do Morumbi? Não há um mísero bar de meia porta, nada.

A esperança era a avenida que dá acesso ao estádio. Ali deveria haver um bar.

A incessante procura me fazia pensar que achar uma TV funcionando no fundo do mar deveria ser mais fácil, até que numa dessas peruas que vendem cachorro quente, surge uma pequena TV portátil, “Santo comércio informal!”

Nos aproximamos da TV em preto e branco, um legítimo modelo paraguaio. Nesse momento, exatamente nesse momento, um jovem jogador santista corre com a bola, o adversário atônito só consegue recuar de medo. Sete! Por sete vezes ele passou o pé por cima da bola num lance conhecido como pedalada, não houve outro jeito: penalidade máxima a favor do Santos.

Maravilha. Mais maravilhoso seria se não estivéssemos cercados de torcedores adversários.

– Não! Gritei.

– Não pode ser, não foi nada, o moleque se jogou! Dizia convicto.

Já estava me acostumando, algumas semanas antes fomos a um jogo das quartas de final contra o São Paulo, Marcelo havia comprado ingressos de cambistas e daquela vez eram verdadeiros.

Pena que fossem pra torcida do São Paulo. Depois daquilo qualquer encenação me parecia possível.

Vai o garoto, bate o pênalti e é gol! E que golaço!

Abraço Marcelo e grito:

– Não esquenta que nós vamos virar, rindo por dentro.

Já havia perdoado Marcelo, estávamos ganhando e depois ele não tinha culpa de ter um nome de doze letras, o que poderia fazer, mudar o nome?

Ora, Marcello assim com dois “éles” parece nome de cantor de música de gosto duvidoso, a outra opção Marcelo Shazan, me parecia mais interessante, mas ele não gostava.

Bom foi aí, “lamentando” o gol do meu time que ouvi uma voz::

– Vamos sair daqui porque eles vão descobrir.

– Descobrir o quê? Indaguei

– O óbvio ululante.

– Mas não há outra TV por aí…

– Vamos, vai ser melhor! Dizia-me convicto.

Fomos. Rumamos à entrada da torcida do Santos. Só havia rádio, nada de TV por perto. O jeito era se conformar e ouvir.

Era uma certa volta no tempo. O rádio despertara em mim a paixão pelo futebol e pelo Santos significando uma espécie de portal encantado ao mundo do estádio, na infância, inacessível. Coincidência ou não lá estávamos nós, de novo.

O homem que me convenceu a sair de perto da TV era um tanto intrigante, parecia agitado, fumava e olhava para os lados como que procurando alguma coisa.

– O senhor também não conseguiu ingresso?

– “Não preciso de ingresso para entrar”

– E não dá pra arranjar um jeito da gente entrar? Perguntou Marcelo

– “Não, esse tipo de acesso vocês ainda não podem ter”

Pensei calado: “O velho elitismo presente no futebol e esse cara é carioca(o sotaque entrega) vai ver é da CBF”

– E o que faz aqui fora? Perguntei.

– “Estou procurando uma pessoa.”

– Quem? Como ele é? Estou aqui fora faz tempo, talvez o tenha visto.

– Não, não creio!

O jeito era pensar no jogo, termina o primeiro tempo e o Santos ganha por 1 a 0.

Marcelo, nervoso, pergunta se “vai dar” pra ganhar, de dois em dois minutos. Respondo sempre que não sei, não sei.

O velho, irritado, diz.

– Chega de humildade rapaz! Chega de usar as incômodas sandálias da humildade. É que vocês perderam demais, o santista é uma espécie de Narciso às avessas, é hora de deixar de ser vira-latas!

Depois de tudo o que passamos, agora vem esse velho sei lá de onde e fica disparando ofensas.

Antes que pudesse reagir, ele continua.

– Só um quadrúpede de 28 patas não percebe que está tudo escrito. Que o Santos vai ser campeão hoje está escrito há mais de seis mil anos. Quarenta anos antes do nada e do paraíso estava escrito que o Santos seria campeão hoje. Só lorpas e pascácios não entendem o óbvio ululante, está escrito”

A convicção era tanta que fomos nos acalmando. Veio o segundo tempo e o jogo seguia tranqüilo… o velho, não!

– Desculpe, estamos falando há um tempão e nem nos apresentamos, qual o seu nome? Perguntei.

– Nelson! Respondeu seco.

– Muito prazer seu Nelson, meu nome é Alessandro Rodrigues Pinto e esse é Marcelo Hazan”.

– Doze letras, né?

Aos poucos seu Nelson foi se soltando, diz que torcia pelo Fluminense, brinquei dizendo que já havia ouvido alguém falar nesse time que existiu há algum tempo.

– Só os idiotas da objetividade não podem ver que o Fluminense é um time fadado à vitória eterna! Conclui.

– Mas se torce pelo Fluminense o que veio fazer aqui? Indagou Marcelo.

– Estou numa missão especial tenho que achar uma pessoa. Não era pra mim essa missão, mas o companheiro encarregado da tarefa, o Gravatinha, anda meio deprimido por causa do Fluminense.

– E esse seu amigo está aí dentro? Pergunto.

– Não sei e não é meu amigo!  Nesse momento o outro time empata a partida.

– Está! Agora sei que está.

– Ele torce pra “eles”? Pergunto.

– O sujeito é tão torpe que não torce pra ninguém, só atrapalha.

– Nossa!

 – É o velho Almeida, Sobrenatural de Almeida, está tentando agir aí dentro preciso encontrá-lo!

A essa altura pensava que depois de tudo só me faltava ficar um tempão conversando com alguém que tem um amigo imaginário, Sobrenatural de Almeida, quando o adversário marca outro gol.

– Seu Nelson, precisamos achar esse sujeito já!

– Estou tentando me concentrar, o coisa ruim é difícil de marcar, se ao menos o Gravatinha estivesse aqui.

– “E se eu tivesse uma TV!” Diz Marcelo.

– Pra que? A TV é burra, o “vídeo-tape” é burro, não tem a imaginação do olho humano. Acreditem, foi bom ter ficado aqui fora.

– Já sei! Tenho que ir!  Entrega-me um cartão de visitas e some sem dizer se volta.

A essa altura  restava-me afogar as mágoas de mais um título perdido ou manter as esperanças naqueles minutos finais.

Confesso que me aproximava mais da primeira opção quando o som de um rádio, de novo o rádio, se fez mais presente.

O menino das pedaladas outra vez. Uma grande jogada que termina em gol de outro jogador. Corri como se estivesse dentro do campo, numa explosão de alegria que só me permitiria saber que o Santos fizera mais outro gol 90 minutos depois do fim do jogo.

Não havia dúvidas: esse era o jogo, visto ali do “umbral”, mas era o jogo.

Na saída me sentia o recepcionista da festa. Abracei um senador, seus filhos, um cantor de RAP, um monte de gente que conhecia dos anos de sofrimento e outras tantas que via pela primeira vez.

Depois choveu, choveu muito por horas seguidas.

Em tempo: o adversário era o nosso maior rival: o Corinthians. A vitória por 3 a 2 nos dava o título brasileiro de 2002.

Confesso que deste jogo não vi mais que os gols e não sei se criarei coragem de ver o “vídeo-tape” um dia.

Ele é burro e tenho medo de apagar de minha memória todas as cenas do melhor jogo que não vi.

Já ia esquecendo o cartão do seu Nelson dizia:

“O que nós procuramos no futebol é o sofrimento. As partidas que ficam, que se tornam históricas, são as que mais doem na carne, na alma”

E no verso:

“O que espero do futebol, é a poesia! Assim na Terra como no Céu. Amém

Nelson Rodrigues[1]

 


[1] As frases atribuídas à Nelson Rodrigues foram extraídas, com o mínimo possível de alterações, de suas crônicas. Ressalta-se que a idéia não é original, em Sussekind(1996) e em Rodrigues(2002) encontram-se “crônicas póstumas”

Todo o resto é verdadeiro.

Singela homenagem ao aniversário de 6 anos do título do BR-02 e àquele time, raro poema

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3 opiniões sobre “

  1. Desnecessário dizer que ri, chorei e fiquei nervoso por vc… Esse jogo eu tinha certeza era nosso. Nem qdo o lixão virou eu me desesperei! E lembro que depois que empatamos de novo, eu gritava, ‘Acaba juiz filho da p*ta! Acaba logo que a gente ainda vai virar…” E o jogo acabou… junto com o gol do Léo… aí sentei na arquibancada e não consegui parar de chorar por no mínimo uma meia hora! kkkk

  2. E que texto! Parabéns, Alessanddro; por retratar com imaginação incomum todas aquelas sensações que invadiram nossos corações santistas.

  3. Magnífico texto Alessandro, agora compreendo porque disse que não assistirá o vídeo-tape. Um forte abraço!

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